2 de mar. de 2013

Orquídea Fantasma - Parte 1

Ele me implorou. Olhou fundo nos meus olhos e apelou para a minha humanidade, é uma pena que eu não saiba o que é isso. Eu podia ver que ele realmente queira viver, que tinha pelo que viver. Eu queria poder deixar ele ir, virar as costas e fingir que nunca o encontrei. Mas eu não podia, a escolha não era minha e nem nunca foi. Eu não sei o que ele fez para merecer isso, só sei que ele deve morrer. Sem pensar mais dei o primeiro e último golpe e arranquei tudo que ele amava. Foi tão rápido que eu acho que ele nem sofreu, pelo menos eu gosto de pensar assim.
Saio de lá e deixo o corpo sozinho, caído na entrada da igreja. Tento tirar aquele rosto implorando da minha mente, mas não consigo. Ele se une as outras incontáveis faces que me assombram todos os dias. Eu não reclamo deles, pois sei que mereço esse tormento já que fui eu quem deu um fim em suas vidas. Já estou acostumada aos meus fantasmas (é assim que os chamo), eles são uma espécie de companhia mórbida que me acalenta quando tenho que sair.
Eu queria poder parar a matança, poder mudar de vida e recomeçar como uma pessoa normal. Porém não posso, não sou livre para escolher. E Eles não me deixariam escolher. Matar é a minha vida, é o que sou e o que sempre fui.
Continuo andando, me escondendo nas sombras da noite. Procurando passar invisível pelas pessoas que ainda possam estar fora de casa durante a madrugada. E assim vou me afastando da prova física de que sou um monstro. Se ao menos uma vez eu pudesse dizer não para Eles, dizer que não vou matar mais ninguém, eu seria feliz. Mas não é assim que as coisas funcionam. Eu não posso dizer não para Eles. Por mais que queira tudo que posso falar é “considerem a missão cumprida”.
Finalmente chego ao meu destino, minha “casa” bem na hora que o sol começa a nascer, na hora que devo me esconder do mundo. Eles já devem estar me esperando para saber os resultados dessa noite. E certamente já tem uma nova missão para mim, afinal eu estou aqui para servi-los. 



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