24 de jul. de 2012

Nascimento



A chuva caía forte e constante lá fora, mas não fazia frio. Tudo estava escuro, a única luz no quarto vinha dos postes lá na rua. A janela já estava tão embassada que não dava para distinguir as outras casas, eram apenas manchas cinzas no horizonte.
Na verdade tudo era cinza, esse era um bairro sem cor, sem vida. Por onde se passava só se ouvia o silêncio, lá não existiam risos. Lá não existiam nem cores e nem alegria, e para falar a verdade não exitiam outras crianças também.
Mas como uma criança pode viver num lugar assim, você deve estar se perguntadno. A resposta é simples: ela não vivia, ela apenas existia. Porém ela não sentia falta dessas coisas. Não se pode sentir falta do que não se conhece.
Lá tudo o que ela podia fazer era ficar sentada e ver os dias passarem. Nunca acontecia algo novo, tudo era sempre igual. De manhã, assim que o sol nascia, todos saiam de suas casas. Para onde eles iam ela não sabia, nunca deixavam ela ir. Mas quando caía a noite todos voltavam.
Até um dia em que tudo mudou. Numa manhã de sol chegou uma mulher. Mas ela era diferente de todas as pessoas que a criança conhecia. Ela tinha cor e tinha sorrisos. Seus olhos brilhavam como as estrelas numa noite de verão.
A estranha estendeu a mão para a criança. E apesar de ter um pouco de receio a criança pegou a mão dela. Foi aí que a magica aconteceu. Derrepente a criança também tinha cor e sorrisos. Ela então tomou coragem e perguntou a mulher:
-         Quem é você? – falou a criança com uma voz roupa pela falta de uso.
-         Ah, minha querida, eu me chamo Liberdade. E qual o seu nome?
A criança olhou a mulher com um rosto curioso. Como se não soubesse muito bem do que ela estava falando.
-         Eu não sei, acho que não tenho um. Acho que ninguém aqui tem um nome. – ela respondeu incerta.
-         Então vamos ter que escolher um nome para você não? – a mulher perguntou com um sorriso gentil no rosto. – Tem algum que você gostaria de ter?
-         Não. Eu não conheço nenhum nome. – a criança respondeu envergonhada por sua ignorância.
-         Então deixe-me pensar em algum... Ah, já sei um que é perfeito. O que você acha de se chamar Criatividade?
-         Eu gostei. – disse a criança com o maior sorriso do mundo no rosto.
A mulher sorriu afetuosamente para ela e estendeu a mão de novo. E assim, de mãos dadas, as duas caminharam para longe daquele lugar cinza. Só que agora aquela não era mais uma vizinhança cinza, por onde as duas passavam iam deixando cores e sorrisos pelo caminho.

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