24 de jul. de 2012

O Voo do Corvo - Capítulo 1

Toda história começa pelo início, mas essa irá começar pelo meio. A causa desse fenômeno é simples, quero poupar vocês, leitores, de verem como nossa heroína pode ser incrivelmente comum e sem atrativos quando criança. Por isso vou contar-lhes só o que aconteceu no fim de sua juventude, ou o que muitos podem chamar de sua “Passagem para a vida adulta”. Bem esses fatos que vocês leram agora aconteceram a muitos anos, quando essa que vós fala ainda nem havia nascido.

Era o ano de 1890 da Segunda Era dos Valungs, o mundo estava em paz a vinte anos e todos viviam bem no pequeno vilarejo de Vurna. Vurna era um lugar privilegiado, diziam seus moradores. Era cercado pela grande floresta de Zefros pelo lado norte e ligada até o mar pelo lado leste, enquanto do seu lado sul corria o rio Limos (o maior daquela região) e ao oeste ficavam os planaltos de Hamug. Apesar de pequeno Vurna tinha uma economia sólida, tudo isso graças ao clima favorável a plantação de vários alimentos e da criação de gado.
Foi nesse lugar que cresceu Eliza, única filha do ferreiro, Sir Gunter. Eles chegaram em Vurna quando a última guerra contra os invasores de além mar tinha acabado. Eliza era ainda um bebê e Sir Gunter tinha acabado de ficar víuvo. Ele era um cavaleiro do reino que havia lutado em várias das batalhas, mas deixou tudo para trás após a morte da esposa. Resolveu trabalhar como ferreiro no pequeno vilarejo e deixar a espada de lado. Pois assim poderia cuidar da sua filha em paz, longe de tudo que tinha conhecido um dia.
Sir Gunter era um homem grande, tanto em altura quanto em largura. Ele era constituido como deviam ser os guerreiros, parecendo um grande carvalho. O fato de ter um cabelo vermelho escuro só aumentava sua distinção dos outros homens do vilarejo, todos pequenos e loiros. Sua filha porém, era mais diferente ainda das pessoas de Vurna.
Desde muito pequena Eliza foi considerada a moça mais bonita da região, mesmo não se esforçando para isso. Na verdade bem poderia se dizer que ela fazia o possível para perder esse título. Pequena, mas não muito magra, ela tinha o cabelo da cor das asas do corvo. Ele era tão preto, que chegava a mostrar alguns brilhos azulados na luz do sol. Seus olhos eram verdes como as folhas da videira, e tão intensos que era possível se perder neles.
Desde cedo aprendeu com seu pai a esgrimir uma espada, atirar com arco e flecha, caçar e a trabalhar o metal com a delicadeza de quem cuida das flores de um jardim. Sir Gunter costumava dizer a quem perguntasse qual a utilidade de ensinar ofícios de homem a uma moça, “que nunca se sabe quando o destino vai bater na sua porta, mas é sempre bom estar preparado”.
Nossa história começa de verdade no exato momento em que o destino de Eliza resolve bater na sua porta.

Faltava um mês para o solstício de verão, mas todos já estavam trabalhando nos preparativos para a festa. Os jovens ajudavam a caçar e separar lenha para as fogueiras, as crianças praparavam enfeites para as casas, as mulheres começavam a decidir que delícias preparar para o banquete e os homens começaram as colheitas. Por isso quase ninguém notou quando um estranho chegou no começo da tarde em Vurna. Não era incomum viajantes pararem no vilarejo para descansar ou comprar provisões, mas esse homem era diferente de todos os que já tinham passado por lá.
Suas roupas eram o que mais chamavam a atenção. Pois ele se vestia como um homem comum, porém os tecidos usados na confecção delas eram muito distintos. E elas em nada combinavam com o porte imponente dele, parecia um guerreiro da corte que tentou se disfarçar de granjeiro. Outro fator que o diferenciava dos demais era seus cabelo longo, chegando até depois dos ombros, preto raiado de prata. Ele usava duas tranças, uma em cada têmpora. Que lhe davam um ar perigoso.
Ele chegou a pé e se encaminhou diretamente para a ferraria de Sir Gunter. Lá chegando só viu um pequeno jovem usando roupas já bem gastas e um chápeu trabalhando na forja. Apesar da constituição franzina, o garoto demonstrava ter bastante força pelo modo como batia o metal para molda-lo. Por causa do barulho o menino demorou a perceber a chegada do desconhecido e isso deu tempo para ele avaliar todo o local.
O estranho percebeu que eles estavam sozinhos, nem Sir Gunter nem sua filha estavam por perto. Ele não gostou disso pois tinha pressa em encontra-los. Derrepente o jovem se virou para colocar o pedaço de metal que estava trabalhando dentro de um barril de água, mas parrou ao se deparar com o viajante.
-         Quem é o senhor? E o que procura aqui? – Perguntou o moço se recuperando rápido do susto.
-         Quem eu sou e porque estou aqui não é seu assunto rapaz. Quero falar com o guerreiro Sir Gunter e sua filha, leve-me a eles agora. – O estranho falava com arrogância de quem era acostumado a mandar e nunca ser desobedecido. Mas ele quase não conseguiu esconder em sua voz o espanto pelo garoto não ser tão jovem quanto ele pensava. O menino devia estar no fim da adolescência e não no ínicio como tinha achado antes. Mas era difícil ter certeza pois toda a sua face estava coberta de fuligem.
O aprendiz levantou o nariz e olhou para ele com tanto desdem como teria feito qualquer membro da corte ao olhar um vagabundo. Isso desconcertou o viajante que estava acostumado a amedrontar as pessoas com sua estatura.
-         Pois saiba senhor, que o Sir está fora visitando um cliente e sem o consentimento dele o senhor não tem permição de falar com a senhorita. Se for algum serviço da ferraria que o senhor procura estarei feliz em ajudar, mas se seu assunto é exclusivo com o Sir aconselho que volte mais tarde. A Taberna do Velho Urso está com quartos vagos se o senhor tiver interesse em descançar um pouco, ela não fica muito longe daqui. – O garoto foi educado, mas cada vez que ele falava a palavra senhor o sarcasmo gotejava de sua boca.
-         Meu assunto é exclusivo com Sir Gunter e sua filha e de nada diz respeito a mais ninguém. Se ele não está ensisto em falar com Milady, pos é um assunto de máxima urgência. Não posso esperar até que o pai dela volte. – Respondeu o viajante com mais arrogância ainda para mascarar sua surpresa diante da atitude do jovem.
-         O senhor não tem permição para falar com a senhorita e sei que ela não o conhece, por isso não posso deixa-lo entrar. Então devo pedir que se retire e espere o retorno do Sir.
Com isso o jovem se virou para voltar ao serviço dispensando o forasteiro. Aquela foi a gota d’água para ele, pois nunca fora tão destradado antes. Em duas passadas ele se aproximou do aprendiz e agarrou o braço dele para o virar.
-         Esculte aqui garoto, ninguém fala comigo desse jeito... – Ele não pode terminar a frase pois o moço lhe deu uma bela cutuvelada no estômago e aproveitou que foi solto para dar com uma barra de ferro na cabeça do desconhecido que desmaiou na mesma hora.

Eliza estava no seu quarto terminando de pentiar os cabelos quando um gemido a avisou que seu visitante misterioso tinha acordado. “Finalmente” pensou ela, como já fazia mais de uma hora que ele estava desacordado ela estava começando a pensar que exagerou na pancada que lhe deu.
Ela arrumou melhor seu traje, se armou de coragem e com um suspiro de resignação se dirigiu para a sala. O comodo era limpo e amplo, estava iluminado apenas por uma lareira que dava uma aparência diferente ao rosto do estranho. O deixava mais jovem e menos intimidador.
Ele ainda estava de olhos fechados, mas tinha a aparência de quem acordaria logo. Aproveitando a pequena vantagem Eliza pegou uma cadeira e a colocou de frente para a cadeira na qual tinha amarrado o intruso. Virando a cadeira ela se sentou escarranchada, do mesmo modo que seu pai quando ia lhe dar uma bronca. Por segurança ela tinha pego sua espada, que agora se achava na bainha presa ao cinto de suas calças. Pouco depois dela ter se sentado o forasteiro levantou o rosto e abriu os olhos.
-         Você é uma garota! – ele exclamou completamente espantado. – Solte-me agora mesmo moça, pois se não quando seu patrão chegar você enfrentará as consequências!
-         Primeiro é grosseiro, depois afirma o óbvio e agora me ameaça! Você não tem amor pela sua vida mesmo não é? – Respondeu Eliza totalmente ultrajada. – Se parasse para pensar um pouco veria que sua ameça é completamente sem fundamentos. Primeiro porque meu pai nunca deixaria você agradir nenhum de seus funcionários, segundo porque você até agora só teve o que merece e...
-         VOCÊ É LADY ELIZA!?! – o prisioneiro gritou e se impulsionou de modo que quase caiu de cara no chão, mas conseguiu recuperar o equilíbrio. – Mas como pode, uma dama como você ser tão mal-educada e ainda por cima se vestir como homem! Exijo que me liberte milady.
-         Agora começou a me ofender. Estou pensando seriamente em lhe amordaçar e deixa-lo aí até meu pai chegar. Ele lhe dará o castigo que você merece por me destratar! – Eliza estava tão ofendida como nunca se sentiu na vida. Ela tinha vontade de bater nele só por vingaça, mas controlou seus instintos pois sabia que seu pai não gostaria nada disso. – Me diga logo qual é seus nome forasteiro, antes que lhe coloque uma mordaça.
-         Meu nome milady, é Lord Lachlan. Sou o chefe da guarda de sua majestade, o Rei Dustran dos Elares. E fui enviado aqui para lhe buscar.
-         Elares? Mas eu achei que os elfos tinham desaparecido desse reino a mais de 20 anos, quando a guerra acabou. Todos pensam que eles foram desimados pelos invasores. E se você é guarda do rei, quer dizer que também é um elfo? E o que diabos você quis dizer com me buscar?
Eliza estava completamente desnorteada pela informação. Ninguém tinha ouvido falar dos Elares em duas décadas e derrepente um aparece em sua casa dizendo que veio busca-la. Ela estava tentando descobrir o que o rei dos elfos iria querer com ela, mas não conseguia pensar em nenhuma resposta.
Lachlan encarou a garota tentando pensar num modo suave de dar a notícia de por que tinha ido procura-la. Porque apesar de ter os modos de um moço criado numa taverna ela ainda era de linhagem nobre e por isso merecia respeito.
-         Sim, eu sou um elfo Milady. E nossa raça nunca pereceu na mão dos inimigos. Mas nossa população diminuiu significantemente, e por isso nossos governantes acharam melhor ficarmos escondidos até que tivesse-mos nos recuperado dos estragos da guerra. E o Rei me enviou em sua busca por causa de sua mãe, Lady Aileen...
-         O que minha mãe tem a ver com isso? Ela está morta a 20 anos!
Ouvisse um barulho vindo do corredor que delatava a chegada de Sir Gunter. Lachlan não sabia se era melhor esperar o guerreiro entrar ou se contava logo a verdade a Eliza. Ele sabia que tinham coisas que só o pai dela poderia explicar, mas ele não podia perder tempo convencendo o cavaleiro.
-         Creio que a senhorita nunca foi informada disso pelo seu pai, mas sua mãe não morreu. Ela está viva e gozando de boa saúde até onde tenho conhecimento. Mas a duas luas ela desapareceu, sua avó crê que ela foi raptada...
-         O QUÊ? – gritaram Eliza e Sir Gunter ao mesmo tempo. Ele tinha acabado de entrar na sala quando Lachlan terminou de falar.


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